Só mais uma pergunta: você tem filhos?



Após analisar meu histórico profissional, a formação acadêmica, os cursos que fiz e meus dados pessoais, a pergunta sempre vem: "Dois filhos... E pretende ter mais um?". Não foi nem uma nem duas vezes que ouvi essa questão em processos seletivos que participei nos últimos anos.


Mesmo feita de forma educada pelos recrutadores (na maior parte das vezes), a pergunta, tão pessoal, escancara uma realidade que nós, mulheres, continuamos a encarar no mercado de trabalho – o receio por parte das empresas de contratar alguém que já tem filhos para cuidar e que, veja só, pode optar por ter mais um.


Raramente homens recebem esse mesmo questionamento em entrevistas. Sei de amigos que nunca foram perguntados no trabalho se tinham filhos e quais eram as idades deles. E sei de uma amiga que o marido foi contratado por uma empresa em outro estado, para um cargo de gerente, sem nunca ter respondido se tinha criança em casa. Ela estava grávida e eles já tinham uma menina de dois anos.


O que as empresas demonstram ao se preocupar com o controle de natalidade das candidatas às vagas é nada mais do que um reflexo do que vemos no dia a dia: a responsabilidade pelos filhos depositada quase que exclusivamente na mãe. É óbvio que é ela quem leva ao pediatra. É óbvio que é ela quem vai às reuniões da escola e quem corre se o pequeno tiver febre ou virose. E é óbvio que isso precisa mudar.


Enquanto a parentalidade não for dividida de maneira igualitária, sobra mesmo para a mãe o peso de ser profissional e... mãe, ao mesmo tempo.

Não são poucas as mulheres que não contam com um companheiro para compartilhar as tarefas com as crianças, e ainda assim dão conta do trabalho e se desdobram em mil versões para fazer hora extra, viagens e o que mais for preciso. Mas até quando as atribuições com os filhos serão só delas?


Por quantos anos assistimos homens que chegaram ao topo de suas carreiras porque tiveram ao seu lado mulheres que deram o respaldo necessário – cuidaram da casa, dos filhos dos dois? Ainda são poucos os exemplos de homens que assumem os cuidados com a família para que suas companheiras cresçam profissionalmente.


Sim, ainda precisamos ver transformações profundas na sociedade e nas estruturas familiares para superarmos as desigualdades de gênero – e, quem sabe, enfim termos nossos currículos avaliados exclusivamente pela nossa experiência profissional e pelo que temos de bom para oferecer às empresas.

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