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O modelo tradicional de família já vem sendo desconstruído há alguns anos, mas, agora, uma nova tendência nos Estados Unidos propõe algo ainda mais inovador: a parceria de paternidade sugere o encontro de dois adultos que desejam ter e criar um filho juntos, mesmo sem estar em um relacionamento.



O modelo tradicional de formar uma família todo mundo conhece: ele e ela se apaixonam, namoram por um tempo, decidem se casar e então providenciam os herdeiros. Mas e se o tempo foi passando e ele não achou a mulher ideal, mais ainda assim quer ser pai? E ela, que alternativa tem se quer ter filhos, mas não está interessada em um relacionamento

convencional?


Situações como essas levaram ao nascimento de um novo arranjo familiar, composto por dois adultos que decidiram ter e criar um filho juntos, porém sem envolvimento amoroso. A ideia é que as responsabilidades financeiras e emocionais que fatalmente surgem com a criação de uma criança sejam dividas entre os pais, na chamada ‘parceria de paternidade’.


Nos Estados Unidos, diversos sites foram lançados nos últimos anos com o intuito de ajudar essas pessoas a se encontrarem. Eles funcionam como uma espécie de vitrine, na qual os candidatos a papais e mamães têm a chance de expor desde suas características físicas

até seus gostos e crenças pessoais, e assim achar alguém que corresponda a suas expectativas.


“Conversando com amigas solteiras, de 30 e poucos anos, percebi que elas se sentiam pressionadas pelo relógio biológico, mas não queriam virar mães solteiras”, conta Ivan Fatovic, CEO e criador do Modamily.com à revista Bianchini. “Propus então um cenário novo, uma família moderna, na qual elas seriam parceiras de alguém com visão e valores parecidos no que diz respeito a criar um filho”, lembra. “Como elas se mostraram abertas à ideia, fiz pesquisas e daí nasceu o site”.


Fatovic admite que um dos arranjos mais bem-sucedidos proporcionados pelo site é aquele que reúne um homem gay e uma mulher heterossexual que, juntos, resolvem criar uma criança – chamado por ele de ‘situação Will & Grace’, em alusão ao seriado da NBC sobre dois amigos, um gay e uma heterossexual que dividem um apartamento. A maior parte dos sites se encarrega unicamente de conectar pessoas com interesses semelhantes, deixando a decisão sobre como conceber o bebê a cargo dos pais.


Novos modelos

As famílias modernas já não são novidade. “Não dá mais para se falar em formato padrão da composição familiar, com pai, mãe e um casal de filhos, como nos comerciais de margarina”, afirma João José Negrão, professor e doutor em Ciências Sociais. “Pela realidade existente, este conceito tem de ser ampliado, para abarcar outros arranjos, dos mais variados, inclusive os homoafetivos”, completa.


Para as crianças, a importância está em conviver com os pais – sejam eles biológicos ou não. São eles que transmitem valores morais e sociais que servirão de base para o processo de socialização dos pequenos. De acordo com a psicóloga clínica Andrea Levy, o ambiente familiar deve ser um local de harmonia, afeto e proteção. Ela explica que é a relação de

confiança e segurança que proporciona a unidade familiar.


“Se os pais têm como foco exercer seus papeis, compartilhando a responsabilidade e oferecendo à criança o que ela realmente precisa para seu desenvolvimento, tanto afetivo como psíquico, podemos considerar [essa nova forma de coparentalidade] um privilégio, e não um prejuízo, se compararmos com casais tradicionais que não oferecem isso a seus filhos”, acrescenta Levy.

No Brasil, a parceria de paternidade não encontra barreiras legais, já que duas pessoas podem gerar um filho sem qualquer tipo de relacionamento jurídico ou compromisso entre si. No entanto, antes mesmo desse novo indivíduo nascer, já nasce uma série de vínculos

jurídicos dele com seus pais, como esclarece o advogado Gustavo Campanati. “As obrigações, em regra, não se dão entre os pais, mas sim entre eles e o filho”.


Como os pais têm a oportunidade de conversar e tomar decisões antes de ter o bebê, é interessante que estabeleçam um mínimo de regras e, se possível, façam um acordo explicitando as obrigações e direitos de cada um. “Acho fundamental para que não haja

conflitos lá na frente. O importante é se precaver e discutir as possibilidades para amenizar possíveis problemas”, afirma o advogado Eric Vieira.


É difícil dizer se a parceria de paternidade encontrará adeptos no Brasil, a ponto de sites de

encontros serem criados. “Nos Estados Unidos, do ponto de vista comportamental, o conjunto da sociedade é bem mais conservador que o brasileiro. Por outro lado, é mais marcante a lógica capitalista de transformar tudo em mercadoria", analisa o sociólogo João José Negrão. "Assim, se há interessados em ‘consumir’ este tipo de encontros, o

mercado vai se incumbir de satisfazê-los”.


Matéria originalmente publicada na Revista Bianchini em 2014.

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