Pequenos e malvados

Transgredir as regras na infância faz parte da normalidade, mas se a maldade nas crianças sai dos limites pode ser sinal de um transtorno de conduta.



A maior diversão do menino Sid é destruir e torturar seus brinquedos. Quase todos eles estão quebrados, com pedaços faltando ou com peças substituídas por partes de outros brinquedos. Não satisfeito em quebrar as próprias coisas, Sid sente grande prazer em assustar e torturar os brinquedos de sua irmã mais nova, Hannah, variando sempre o método: pode queimá-los, decapitá-los e até explodi-los.


Sid é Sidney Phillips, vizinho do protagonista Andy e o principal ‘vilão’ da animação Toy Story (1995). Ele é apenas uma criança, mas não demonstra sentir dó ou ternura por seus brinquedos, tampouco por sua irmã. Comportamentos como transgressões de limites, oposição às regras e mentiras ocasionais fazem parte da infância e da adolescência. Porém, quando a maldade dos pequenos extrapola a normalidade, pode ser indício de um transtorno de conduta infantil.


Considerado uma patologia psiquiátrica, este transtorno possui diagnósticos específicos: é caracterizado pelo comportamento persistente de violação das normas sociais e do direito dos outros, ao longo de, ao menos, 12 meses. “Entre os transtornos mentais de saúde, sabemos que o de conduta afeta de 3,1% a 5,7% dos jovens, e a percepção mais frequente dos sintomas se dá entre os sete e os 15 anos de idade, em geral mais em meninos do que em meninas”, explica Marcia Morikawa, psiquiatra do Hospital Albert Einstein.


Os jovens que apresentam o transtorno tendem a manifestar comportamentos que perturbam os outros e a se envolver em atividades perigosas. Eles não mostram sofrimento ou constrangimento com as próprias atitudes, e não se incomodam em ferir os sentimentos das pessoas. O impacto de suas ações é maior nos demais do que neles mesmos. No entanto, falar de criança e maldade em uma mesma frase ainda é sinônimo de tabu.


Nas famílias modernas, as crianças são idealizadas desde sua concepção para serem perfeitas, saudáveis, inteligentes e bem-sucedidas. E é exatamente aí que está a dificuldade de pais admitirem que seus filhos têm problemas. “Há muito preconceito quando falamos de transtornos psiquiátricos, ainda mais quando é na infância ou adolescência. Os pais não conseguem aceitar que seus filhos sejam diferentes, sentem-se culpados, acham que falharam na educação”, diz Morikawa.


Mas há um culpado quando se fala de um transtorno psiquiátrico? No entendimento médico, a personalidade do homem está em formação até os 18 anos, e é composta pela junção do temperamento – ou seja, as características que acompanham a pessoa desde o nascimento – e do caráter, que deve ser ensinado (como as normas, as condutas, o certo e o errado). Há também a influência dos fatores genéticos, das condições na gestação e das experiências vivenciadas durante o crescimento.


Não dá, portanto, para apontar um responsável. A predisposição de um indivíduo pode ser reforçada pelo meio em que ele vive, culminando, possivelmente, no transtorno.

Um bom exemplo de como genética e meio social podem colaborar com o transtorno é a história da inglesa Mary Bell. Aos 11 anos, em 1968, Mary estrangulou dois garotos, de três e quatro anos de idade. No seu laudo psiquiátrico, consta que a menina não demonstrou remorso ou chorou ao saber que seria presa, e não soube dizer nem mesmo a razão de ter matado. Mary cresceu com um histórico familiar conturbado: sua mãe era prostituta e viciada em drogas, e obrigava a filha a se prostituir desde os 4 anos.


Falar em cura, entretanto, não é fácil quando se trata de aspectos de personalidade. O que existem são tratamentos, que têm como objetivo controlar os sintomas do transtorno e estimular a funcionalidade da criança, extremamente necessários para tentar fazer com que ela se enquadre nas normas da sociedade. As respostas aos tratamentos, obviamente, são proporcionais ao envolvimento das pessoas que vivem com ela.


Um estudo feito pela psiquiatra brasileira Isabel Bordin, em parceria com David Offord, um dos maiores pesquisadores de desenvolvimento e psiquiatria infantil do Canadá, afirma que os tratamentos devem incluir intervenções junto à família e à escola, com psicoterapia individual e familiar e também orientação dos pais e treinamento destes e dos professores em técnicas comportamentais. Porém, eles salientam que, como intervenção isolada, nenhum deles pode ser muito eficaz. Ainda assim, quanto mais precocemente forem iniciados os tratamentos e quanto mais jovem for o paciente, melhores os resultados.


Nos adultos, o transtorno é chamado atualmente de personalidade antissocial, mas já foi conhecido como psicopatia. “Como crianças e adolescentes são seres em formação, têm uma maior plasticidade às abordagens propostas e às mudanças em seu meio, quando comparados aos indivíduos adultos”, afirma Morikawa. “Com uma boa intervenção, pode-se dizer que a criança não está, necessariamente, fadada a ter um transtorno de personalidade antissocial”, completa.


Matéria originalmente publicada na Revista Bianchini em 2014.

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