Para sempre Peter Pan

Quando criança, é comum pensarmos que acordaremos um dia e saberemos aquilo que os outros também enxergarão: somos adultos. Com o assoprar das velinhas, descobrimos que a passagem para a vida adulta não é bem assim e pode demorar mais do que pensamos.



Na visita que fazem à única filha em Nova York, os pais de Hannah decidem avisá-la que sua mesada está suspensa. Com vinte e poucos anos, formada há dois e ainda sem emprego fixo – só um estágio não remunerado que parece não vingar –, Hannah Horvath, a protagonista da série Girls (HBO), se vê forçada a assumir responsabilidades de repente. “Mas todos os meus amigos têm ajuda dos pais”, ainda tenta. Sem chances, brada a mãe: “Chega de dinheiro!”.


A personagem, livremente baseada na vida da atriz e criadora da série, Lena Dunham, faz parte de um grupo crescente. Os jovens da vida real têm demorado cada vez mais para conquistar a independência, seja financeira ou emocional. De acordo com a pesquisa mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 24% dos brasileiros de 25 a 34 anos moravam com os pais em 2012 - 4% a mais do que os números do levantamento anterior, de 2002.


A Organização Mundial da Saúde considera adolescência o período entre os 10 e os 19 anos. Entretanto, fenômenos como a saída tardia da casa dos pais têm feito psicólogos especializados em crianças, no Reino Unido, discutirem novas diretrizes para a adolescência. Eles cogitam estendê-la dos 18 para os 25 anos de idade, argumentando que ninguém se torna automaticamente ao fazer 18 anos, e que essa mudança acompanha a evolução da ideia que se tem hoje sobre maturidade emocional, e até mesmo, atividade cerebral.


Quem paga a conta?

Para a psicóloga clínica Rosivania Rodrigues, não é errado que os pais auxiliem os filhos financeiramente, mas devem ficar atentos se os jovens com mais de 20 anos não tiverem a pretensão de se tornar independentes. "Eles não podem ser propriedades dos pais, pois, em algum momento, acharão que não precisam mais crescer, e aí chegam os problemas”, defende. É claro que o corte dos laços não precisa ser abrupto, mas ele deve acontecer, e da forma mais pacífica possível. “Para os pais, a adolescência termina quando o filho deixa de morar com eles”, diz a pediatra Caroline Salcedo. Por isso, jovens adultos que ainda vivem na casa dos progenitores acabam sendo tratados como adolescentes, mesmo quando não possuem mais características dessa fase.


Na opinião da médica, a adolescência deve ser melhor trabalhada em seu tempo, até por volta dos 18 anos, para que a entrada na nova fase da vida seja mais tranquila. Se ainda há dependência financeira, cabe ao jovem iniciar um processo de emancipação de pensamentos e escolhas.


“Como consequências da adolescência tardia, os jovens ficam despreparados para as responsabilidades da vida, não sabem lidar com frustrações e dificilmente se empenham em algo que exija esforço e dedicação”, afirma a psicanalista Fernanda Borges. Se o elo se perpetua demais, pode criar jovens que apenas reproduzem padrões confortáveis.

“A força da juventude não deve ser a de questionar o velho e propor mudanças?”, indaga Fernanda.

Seja aos 18 ou aos 25 anos, o tempo de desenvolvimento e maturidade é único para cada indivíduo, conforme alerta a psicóloga Rosivania. “O importante é que pais e filhos estejam conscientes da necessidade de, em determinado momento, se passar por um processo de transição, para que o adolescente ingresse na vida adulta com desejo de ter autonomia”, completa. E que não precise chegar ao extremo, ainda que cômico, dos pais terem que fazer uma intervenção como a de Hannah.


Matéria originalmente publicada na Revista Bianchini em 2014.

Quer falar comigo?

© 2020 by Juliana Lopes Alquati. Created with Wix.com