Memórias de uma víbora

Reunidas no livro intitulado “A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista”, algumas das grandes reportagens de Joel Silveira, como a que dá nome à obra, ajudam a traçar o perfil profissional – e por que não pessoal – de uma das personalidades do jornalismo brasileiro.



Nascido em Sergipe, Joel Silveira chegou ao Rio de Janeiro ainda bem jovem e passou a vida cercado de escritores, pintores, jornalistas, poetas e intelectuais, pessoas de quem não só conseguiu arrancar confissões em espetaculares entrevistas, mas que também compuseram seu rol de amigos íntimos e fiéis.


O poder da víbora, apelido dado a ele por Assis Chateaubriand, foi conhecido nacionalmente pela primeira vez no começo dos anos 40, com a reportagem “Grã-finos em São Paulo”. Chatô havia se encantado com a acidez e o sarcasmo de Silveira na reportagem em que satirizava os costumes dos ricos de São Paulo, troçando de suas fortunas, sobrenomes e hábitos peculiares, como o de se reunir na livraria Jaraguá todos os dias para discutir por horas sobre tudo, exceto sobre livros.


É nesse ar de zombaria e crítica que o jornalista, a pedido de Chateaubriand, seu então chefe nos Diários Associados, dá a mesma cobertura à celebração de casamento da filha do conde Francisco Matarazzo Jr., a “festa do ano”, e ao matrimônio da filha de uma operária das fábricas da família Matarazzo, em uma tirada genial.


Em um dos capítulos mais interessantes, Joel conta sobre o dia em que entrevistou os bandidos de Lampião na penitenciária de Salvador. A maneira bonita como o diálogo transcorre e o curioso envolvimento criado entre eles e o entrevistador são tão intensos que se chega ao final da história com certa simpatia e compaixão pelos seis violentos ex-cangaceiros.


As entrevistas relatadas na obra trazem um misto riquíssimo de típica curiosidade jornalística, afinal Joel cumpria com excelência seu papel profissional, com intimidades que só um amigo tão próximo poderia ter. Foi a intimidade com Graciliano Ramos lhe permitiu contar o lado amargurado do escritor, sempre insatisfeito consigo mesmo e com suas obras. A demora pelo reconhecimento artístico lhe pesou por toda vida, até ganhar o primeiro prêmio, em 1942, por Vidas Secas, publicado quatro anos antes.


De mesma proximidade desfrutava com Manuel Bandeira, a quem visitava ao menos uma vez por semana lá pelo ano de 1938. É com saudade que Joel relembra a última vez que o viu, às vésperas de o poeta completar oitenta anos, mantendo ainda sua impressionante memória numa espantosa lucidez. Ele relata, com entusiasmo, a reação de Bandeira diante da inesperada situação de presenciar, pela janela, uma vaca comendo as flores do jardim na casa de verão onde estava hospedado. “Tinha alegria de menino cúmplice de uma travessura”, conta.


Mas é da amizade com o irreverente Di Cavalcanti que surge uma das situações mais emocionantes do livro. Preso em 1968, no mesmo dia em que o AI-5 foi decretado, Joel Silveira constava na lista de “intelectuais mais perigosos e contestadores do regime militar”. Ao sair da prisão, cheio de dívidas e às voltas com o casamento da filha, encontrou-se em situação delicada: não lhe restara outra solução senão vender um quadro que Cavalcanti havia lhe dado. O resultado foi o pintor enfurecido com o amigo e dois meses de relações cortadas.


O livro chega ao fim com um posfácio de Fernando Morais, absolutamente necessário para que a obra termine completa, contendo mais histórias e memórias que, juntas como num mosaico, ajudam a compor não só biografias de seus ilustres entrevistados, mas também a decifrar a vida tão bem vivida da víbora do jornalismo.

Resenha publicada originalmente no site Overmundo, em 2007, e revisada em 2020.

Foto: Walter Ennes/Folhapress

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