Madame Bovary e as adúlteras da literatura

Com a personagem Emma, Gustave Flaubert inaugura o realismo na literatura e choca a sociedade ao descrever as aventuras de uma mulher adúltera. As traições femininas viram tema na arte, mas somente se o fim das histórias contribuir como advertência moral às leitoras.



Uma mulher adúltera desgraça a sua família. Essa é a moral da história, a lição que o livro Madame Bovary, do francês Gustave Flaubert, quer nos passar. São as traições de Emma, a personagem principal, que consomem sua dignidade e sua vida. E, consequentemente, a de seu marido e a de sua filha. Desculpa aí pelos spoilers desse super lançamento de 1857.


Flaubert ficou conhecido pela narração perfeita, a estética realista e a escolha cuidadosa do vocabulário. E também por ter parado no tribunal por conta da obra, acusada na época de imoral. Como assim uma esposa que trai? Ele foi absolvido, mas Emma não. Assim como outras mulheres adúlteras da literatura.


O sofrimento e as desgraças eram os únicos desfechos possíveis para tal comportamento, naquele tempo. Os adultérios femininos podiam ser tema na arte, narrados até com riqueza de detalhes, mas somente se o fim das histórias contribuísse como uma advertência moral àquelas que liam. Assim, a família tradicional poderia repousar em paz.


A francesa Madame Bovary inaugura uma galeria de personagens femininas que foram punidas pelos seus comportamentos. Por terem, em algum momento, cogitado escapar de um casamento infeliz para buscar uma nova fonte de emoção e, quem sabe, de amor.

Anna Karenina, de Liev Tolstói, paga por ter se apaixonado por outro homem e chocado a sociedade russa, em 1877. Anna, que incentiva sua cunhada a desculpar o marido pelas repetidas traições dos últimos anos, não recebe o mesmo perdão de seu círculo social e muito menos de si mesma.


A culpa também consome Luísa, a mocinha de O Primo Basílio, publicado por Eça de Queirós em 1878, em Portugal. É preciso que elas sofram – e nem sempre pelas mãos do marido traído. Às vezes o papel de torturador cabe a outras pessoas, como Juliana, a empregada da casa de Luísa. Mas o peso maior está sempre na própria consciência de sua fraqueza.


Entediada, né, minha filha?


A insatisfação de Emma


Apesar dos mais de 160 anos de idade, o livro funciona bem até hoje. Tem um quê cômico, com críticas a vários setores da sociedade da época – igreja, burguesia, academia – e um estilo bastante ousado de descrever Emma e seus desejos.


Emma tem um descontentamento crônico. Aquela doença de nunca estar feliz com nada, de sempre imaginar que existe uma felicidade maior, um amor mais explosivo, um estilo de vida mais luxuoso. Tudo que ela tem é apenas um ensaio para o que, em sua cabeça, terá um dia. E é justamente essa busca incessante por ter mais que leva a seu fim.


Ela sempre quis sentir emoções além do convencional. Quando se casou com Charles, até tentou levá-lo a sério, mas ele não facilitava as coisas: era tão dócil, tão bonzinho, tão compreensivo, tão feliz com o que tinha. Não que isso fosse ruim, mas não servia para ela. Alguém que perdoava o tempo todo, que a amava, que a venerava. Quem aguenta?


E como toda dona de casa da época, Emma não tinha muito que fazer da vida. Ficava lá, entediada, lendo livros, tendo ideias. E esse é outro ponto em comum com as demais personagens adúlteras: elas leem! E as histórias românticas que consomem as fazem sonhar e desejar uma paixão arrebatadora, muito diferente do que têm em casa.


Eu divido as traições de Emma em duas categorias, uma legítima e uma forçada. O caso com (atenção, mais spoiler) Rodolphe não foi natural, foi uma escolha consciente de ambos. Ele a viu e a desejou. Era bonita, a esposa do médico do vilarejo, estava super aberta a conhecer gente nova. Ela o viu e enxergou uma aventura. Era bonito, rico, solteiro, aventureiro, meio brusco.


Mas quando o caso já acontecia há um tempo, as coisas passaram a perder a graça. Não tinha mais frio na barriga. Aí Emma perdeu a cabeça, inventou vários dramas e Rodolphe fugiu. Ela enlouqueceu. E não acho que era de amor não, era de exagero. De se sentir traída pelo amante, que não quis entregar a alma para ela. Para mim, não foram os casos extraconjugais que levaram Emma ao fundo do poço, mas seus excessos. Ela não sabia parar.


O segundo affair veio, na verdade, por primeiro e foi acaso da vida. Ela e León se conheceram quando o casal Bovary se mudou para o vilarejo. Desde o primeiro jantar percebem uma conexão natural entre eles. O assunto flui, o interesse é mútuo. León era jovem e tinha um estilo 'eu estou aqui, mas não sou daqui', sabe? Um potencial de sair daquele lugarejo esquecido e alçar voos maiores.


Emma tinha certeza que era diferente das outras mulheres camponesas. Ela tinha porte, bom gosto, ambição. Só estava no lugar errado. E é com León a melhor parte mais ousada do livro, o passeio de carruagem em Ruen, durante o dia, com as cortinas fechadas. O carro andando a esmo pelas ruas e León gritando com o cocheiro, a cada parada que ele dava, para prosseguir.


Apesar de ter encontrado a emoção que tanto buscava, as coisas acabam indo pelo mesmíssimo caminho. Depois de um tempo como amantes, eles acabam perdendo a graça um para o outro. Emma fica mandona e exagerada de novo, perde o controle de suas vontades, seus gastos, suas ousadias. Repito: ela não sabia parar.


Por fim, Emma se afunda cada vez mais em seus excessos até chegar a um ponto que não sabe mais como sair do buraco em que se enfiou. Quem poderia tirá-la dali? Talvez Charles, o marido. Mas ela sentiu medo de ser salva por ele. Não porque o temia, mas porque isso faria com que o desprezasse ainda mais. A certeza que seria perdoada. E a repulsa de voltar a viver uma vida convencional. Optou por resolver, ela mesma, seu trágico destino.

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