Deixe sua cabeça funcionar



Quando eu era criança, perguntava para meus pais se podia ‘entrar na internet’ para pesquisar alguma coisa ou conversar com amigos. A expressão ficou velha rapidinho. Ninguém mais ‘entra na internet’, nós já estamos conectados o dia inteiro, todos os dias. E isso nos permitiu estar cercados de informações como nunca estivemos antes.


Jamais tivemos acesso a tantos meios de nos informar: desde a pré-histórica revista que chega pelo correio (aliás, mais alguém aí assina revista?) até o onipresente celular, que nos conecta a infinitas possibilidades de leituras, vídeos, áudios, fotos e sabe-se lá mais o quê. Ele, o aparelho que fica colado o dia todo em nossa cara, da hora que acordamos ao momento que nos deitamos na cama para dormir.


Aí eu me pergunto: será que sobra tempo para a gente pensar? Para deixar nossa cabeça funcionar sozinha? Não estamos exagerando nas referências? Penso, sinceramente, que não conseguimos ter ideias próprias quando passamos o dia inteiro consumindo ideias dos outros.

O sociólogo italiano Domenico de Masi diz que o ócio não é a contraposição ao trabalho – e não significa exatamente ficar sem fazer nada, mas sim estimular a criatividade pessoal. E, para que isso aconteça, pode ser pode ser interessante passar um período do dia, por menor que seja, sem receber nenhum estímulo exterior. Ver para onde seus pensamentos te levam. Ouvir o que você mesmo tem a dizer.


Nas últimas semanas, me peguei emendando um podcast no outro. Percebi certa dificuldade em ficar sem ouvir ou ler alguma coisa durante minhas atividades do dia. A gente não se deixa ficar sozinho, com a cabeça livre, nem um minuto. Nem na fila, no trajeto para o trabalho ou naquela pausa no meio do dia para espairecer. E espairecer como, se aproveitamos até o semáforo vermelho para checar o Instagram?


Vejo as crianças brincando livremente na minha casa sem usar telas e penso em quantas vezes pego meu celular para consultar o aplicativo do jornal. Admiro como conseguem criar personagens, mundos e tramas complexas em pouco tempo, só usando a imaginação. Tenho bastante a aprender com eles – principalmente essa capacidade honesta de se entregar de verdade ao momento.

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