Deixe partir

O título é sensacionalista, mas a mensagem é clara: há momento em que precisamos deixar o velho morrer para abrir espaço ao novo. As três mulheres desta reportagem fizeram isso: profissão, marido, cidade... Elas abriram mão do que lhes era familiar para sair da zona de conforto. Só depois da mudança radical elas entraram em um novo ciclo.



“Começou a gritar dentro de mim uma pulsão pela vida, uma vontade de sair daquela zona de conforto. Tinha alguma coisa me incomodando, mas era uma coisa muito minha, muito subjetiva”. Quando o desconforto da escritora e filósofa Liliane Prata, 35 anos, de São Paulo, se tornou insuportável, a ponto de não haver outra opção além de encarar o escuro do desconhecido, ela decidiu pôr um ponto final em seu casamento de nove anos e partir em busca de novas vivências.


O mais curioso é que, por incrível que possa soar, o relacionamento estava muito bem, obrigada: a relação com o marido era harmônica e estável, segundo ela. Mas sabe quando a zona de conforto fica... desconfortável? O marido era tradicional, sereno, diferente dela, muito inquieta e com sede por experiências novas. “A gente vivia se esbarrando nisso aqui em casa. No último ano de casados, eu sentia uma ânsia de novidade, de mudar minha vida”, revela.


O momento "o que eu fiz da vida?" aconteceu, é verdade, mas foi pontual e o próprio ex-marido, quem diria, a lembrou: medos e surtos fazem parte dos momentos de transição. Tão logo se separou, Liliane trouxe À superfície as mudanças que aconteciam internamente. Se despediu da cabeleira na altura dos ombros e adotou um corte pixie, meio Mia Farrow. “Cortar o cabelo depois de uma mudança tão grande na vida é um clichê, eu sei. Mas acho que é uma maneira de elaborar a mudança de um jeito concreto. Aproveitei que meu cabelo estava numa fase chata, meio rebelde. Não queria ter o trabalho de cuidar dele, queria acordar e viver, entende?”. Opa, se entendemos!


¡Hasta luego!

O fim de um relacionamento de sete anos também foi o empurrão que faltava para a jornalista Paula Romano, 31 anos, mudar, literalmente. Como não queria voltar para a casa dos pais em Sorocaba, nem continuar morando em São Paulo, Paula fez as malas e se mudou, então, para a Cidade do México. “Nunca tinha pensado em ir morar no México, mas queria aprender espanhol e conhecer novas pessoas", conta. Não precisou trocar de emprego, já que trabalha online, mas todo o resto mudou, e para melhor. “Foi minha intuição que me trouxe até aqui. E, de fato, acertei, porque a cidade é incrível, tem muita coisa pra fazer, é imensa, são muitas opções. Eu fui muito bem-recebida”. E o que era para ser uma experiência de apenas três meses está durando dez. Hoje, Paula dá aulas de português, descobriu uma nova paixão, o crossfit, e não tem planos de voltar tão já.


A vida é um ciclo

Conforme a psicóloga Juliana Pinheiro explica, os ciclos são inerentes ao viver. É preciso aceitar o encerramento de um que era importante, deixar "morrer" aquilo que ele representava, para abrir espaço na vida para que outro se inicie, seja ele qual for.


Ah, mas isso não quer dizer que mudar seja tranquilo, mesmo tendo consciência do processo. Deixar pra trás o que é conhecido gera insegurança pelo que está por vir. “As dúvidas que assombram a mente nesse momento também são importantes. É um período de analisar os prós e os contras da nova situação. Uma decisão impulsiva pode até dar certo em determinados momentos, mas, na maioria das vezes, quando a pessoa repensa, a atitude poderia ter sido outra ou, pelo menos, ter sido tomada de outro modo”, analisa.


Em busca de proximidade

Calma e tranquilidade foram primordiais quando Michelle Antunes, 32 anos, se descobriu grávida do terceiro filho. Ela entendeu que era o momento de pôr em prática o que estava ensaiando há anos: mudar de profissão. Formada em Tecnologia em Saúde, passou sete anos trabalhando com equipamentos médicos em um hospital de São Paulo. “Gostava do meu trabalho, tinha segurança e bom retorno financeiro”, diz Michelle. Mas, morando em Sorocaba e trabalhando na capital, o desgaste e o deslocamento estavam comendo o tempo que poderia estar passando com os filhos Mateus, 8 anos, e Nicole, 6. “Era sacrificante para mim e para eles. Eu saía de casa bem cedo e voltava depois das sete da noite. E eles iam dormir às nove! Era um tempo muito curto para ficar com eles”, lembra.


No nascimento de Daniele, há quatro anos, Michelle entendeu que não daria mais para continuar naquele ritmo e foi atrás de um assunto que – apesar de nada ter em comum com seu trabalho anterior – já a interessava: a humanização do parto. “Tive medo de abrir mão do meu salário, de não ser boa para trabalhar com pessoas. Meu primeiro ano como doula não foi fácil, mas eu nunca pensei em voltar atrás. Sentia muita falta de ficar mais com meus filhos. A cada parto que acompanho aprendo mais sobre o que as mulheres são capazes”.


O poder do autoconhecimento

O caminho tende a ficar mais descomplicado quando se presta atenção aos próprios sentimentos e os aceita. “Esse autoconhecimento viabiliza fazer escolhas mais personalizadas e satisfatórias. Aos olhos dos outros, a mudança pode parecer radical, mas não é para aquele que está ciente de suas necessidades”, afirma a psicóloga Sara Possamai.


Estar em movimento faz parte da natureza. Assim, a ideia de estabilidade pode parecer bastante perturbadora para algumas pessoas e, se insistimos em um modelo pronto, acabamos nos deparando com uma vida insatisfatória. E aí, a natureza se manifesta com seu movimento, perturbando a ordem.

Mudança à vista

A psicóloga Sara Possamai lista cinco questões importantes para você refletir a respeito antes de se jogar no novo.

  1. Observe com calma suas sensações, sentimentos e ideias, para ter certeza que não está confundindo os próprios sentimentos com os de alguém próximo que também esteja em um processo de mudança.

  2. Respeite seu tempo. Apressar-se com pensamentos do tipo "tenho que decidir já!" não ajuda.

  3. Entre em contato com quem já passou por experiências parecidas. Ouvir alguns relatos pode ajudá-la na decisão.

  4. Não guarde as angústias para si. Converse sobre o assunto com pessoas cuja opinião você respeita.

  5. Uma vez certa do que quer, saiba que dificuldades virão, mas se mantenha confiante que algo melhor também virá.


Matéria originalmente publicada na Revista Flamí em 2016.

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