Cancela ou não cancela?

Com o despertar da consciência para temas sensíveis como o machismo e o racismo, como fica nossa relação com as obras produzidas por personalidades que nem sempre se portaram de maneira ética? Devemos cancelar? A arte ou a pessoa? Ou é possível contextualizar e relevar comportamentos predatórios em prol de suas importantes produções artísticas?



Na exposição organizada pela Pinacoteca de São Paulo sobre Di Cavalcanti, no fim de 2017, fiquei intrigada com um trecho dos textos informativos que acompanhavam os quadros. Não me lembro mais quais palavras exatamente foram usadas, mas contextualizava o visitante sobre a maneira de Cavalcanti retratar as mulheres. Em resumo, dizia algo sobre ver, com os olhos de hoje, uma expressão artística feita em outra época.


Os tempos mudaram, assim como a sensibilidade de grande parte das pessoas em relação a temas como feminismo, machismo, racismo e tantos outros. Podemos então, com nosso conhecimento atual e a evolução dessas discussões, julgar a arte feita em outros períodos da história? E os artistas, é possível apreciar suas obras de arte sem considerar suas vidas pessoais, muitas vezes permeadas de passagens monstruosas?


Essas questões foram levantadas com força quando a National Gallery de Londres abriu a mostra sobre Paul Gauguin no segundo semestre de 2019. Chamada "Gauguin Portraits", tinha entre as obras expostas os retratos que fez das meninas com quem se relacionou quando viveu no Taiti. O foco do público, que por décadas esteve apenas nas técnicas da pintura, mudou definitivamente para a um contexto muito mais amplo. O próprio audioguia do museu perguntava aos visitantes: “Seria hora de deixar Gauguin de lado de vez?”.


Apesar de nascido em Paris, o pintor passou a infância no Peru e dizia ter grande desejo por viajar e viver em lugares 'selvagens' – termo que por si só já expressa sua visão depreciativa de povos e culturas diferentes da dele. Em 1891, mudou-se para a Polinésia Francesa e produziu seus quadros mais conhecidos. Foi lá também que viveu e teve filhos com adolescentes polinésias, muitas delas retratadas em suas obras (“Tehamana Tem Muitos Pais”, por exemplo).


A pergunta geral foi: devemos cancelar Gauguin? Toda sua obra perde valor quando sabemos que as meninas com quem ele dormia tinham 13 anos de idade? Em sua coluna no jornal Folha de S. Paulo, o escritor João Pereira Coutinho defende que não, que, para ele, o que interessa em Gauguin não é seu 'registro criminal', mas sua biografia artística. "Uma coisa é afirmar que a arte não é manchada pela biografia. Outra é defender que a arte higieniza a biografia", escreveu.


A jornalista Farah Nayeri, em matéria para o The New York Times, explicou que os textos que acompanhavam as obras do museu de Londres traziam uma contextualização importante: "Gauguin sem dúvida explorou sua posição como um ocidental privilegiado para aproveitar ao máximo as liberdades sexuais que lhe foram oferecidas”. Quando a mesma exposição estreou em Ottawa, no Canadá, os descritivos foram revistos e editados pelos curadores. Ao lado das palavras 'selvagem' e 'bárbaro’, explicações de que, embora hoje ofensivas, eram expressões comuns "à era e lugar de Gauguin".


Ainda que muitos críticos defendam a separação total entre obra e artista, a apresentação do contexto se mostra uma opção razoável. O filósofo Daniel Callcut relembra que os artistas receberam, historicamente, um 'passe moral', ou seja, permissão para viver de maneira que não seria moralmente aceitável para o restante das pessoas. Talvez seja hora de repensar essa licença artística. O que devem fazer então as galerias de arte? Nunca mais exibi-los? Uma questão complexa, levando em conta quantos grandes artistas tiveram comportamentos repulsivos na história.


No campo do cinema, as dúvidas quanto à separação de obra e autor se reacenderam nos recentes escândalos de abusos sexuais envolvendo famosos diretores, produtores e atores. É possível assistir a um filme de Woody Allen sem ao menos pensar em todas as histórias controversas que permearam sua vida? O diretor está longe de ter uma reputação ilibada: nos anos 90, se envolveu com a jovem Soon-Yi, filha adotiva de Mia Farrow, sua esposa na época. Alguns anos depois, foi acusado de abusar de uma filha adotiva, Dylan.


Em um longo artigo para o El País, a escritora americana Claire Dederer propõe um debate sobre o que fazer com a arte de homens monstruosos. "O horrível afeta o maravilhoso", diz. "Ou talvez não". "São gênios e são monstros, e não sei o que fazer com eles”. Ela conta sua experiência de assistir pela primeira vez, em 2017, ao filme “Manhattan”, lançado por Allen em 1979. Outrora apreciadora do talento do cineasta, sentiu-se “um pouco nauseada” ao ver na tela a história de um homem de meia-idade que se relaciona com uma garota de 17 anos.


O controverso assunto não parece estar no fim – muito pelo contrário. A cultura do cancelamento, tão em voga, e os julgamentos morais poderiam nos afastar de obras fantásticas. Por outro lado, não há mais espaço para o desconhecimento intencional do fato que muitas dessas criações foram feitas às custas de outras pessoas, como no caso de Gauguin, cujas mulheres retratadas, muito mais do que musas, podem ser chamadas de vítimas.

Obra "Mulheres de Taiti na Praia", pintada por Paul Gauguin em 1891

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