Aquele em que Frida Kahlo corta o cabelo

Em autorretrato provocador, pintora mexicana renuncia aos seus mais conhecidos símbolos para se libertar do vínculo nocivo com Diego e se assumir como artista e mulher independente.



Frida Kahlo é a artista mais pop do momento. Eu vejo a cara dela o tempo todo, em todo tipo de lugar: canecas, bolsas, tatuagens, lição de casa dos meus filhos, meias, folhetos, almofadas e muros de salões de beleza.


Dos tantos autorretratos que a artista mexicana produziu ao longo da vida, um me chamou atenção especial recentemente – chama-se "Autorretrato com cabelo cortado", obra de 1940.


Nele, Frida está sem os famosos vestidos coloridos e as longas tranças. Ao contrário: está vestindo um terno, com uma tesoura na mão e muito cabelo jogado no chão. A cara desafiadora continua lá, olhando para quem olha para ela. Ou para Diego, nesse caso.


O quadro foi pintado poucos meses depois de ter se divorciado de Diego Rivera, famoso muralista mexicano, com quem teve um relacionamento conturbado. É seu grito de liberdade, como mulher e como artista independente.


Todos os símbolos ali presentes remetem aos tumultuados sentimentos de Frida pelo ex-marido e pelo fim. O longo e escuro cabelo que ele tanto adorava, agora cortado e espalhado ao redor. A roupa larga e masculina, como as que ele usava, agora vestidas nela.


Frida fala de identidade, de gênero, de um amor que existe mas exige. Qual o custo desse relacionamento? Na letra da música escrita no topo da tela, um homem ama uma mulher pelo seu cabelo e a deixa quando ela o corta. Mira, se te quise, fue por el pelo; ahora que estás pelona, ya no te quiero.


É um retrato forte, com uma mensagem corajosa. Ali, ela fala de autonomia. De usar o terno que era dele e, desta forma, ocupar o lugar que era dele. Fala de, finalmente, estar no comando da própria vida.



A tela faz parte do acervo do MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York.

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