A Uruguaia, de Pedro Mairal

Nesse romance rápido e fluido, o autor descreve com maestria as desventuras de um escritor argentino que se vê atraído por uma jovem uruguaia e pela possibilidade de viver uma história muito mais emocionante do que a sua realidade.



"A Uruguaia" é uma daquelas histórias que fluem. Não só pelo fato de ser um livro curto, de apenas 123 páginas, mas porque a narrativa corre de maneira tão descomplicada que é impossível não se ver apegado às pequenas aventuras do protagonista.


O romance, do escritor argentino Pedro Mairal, foi lançado no Brasil em 2018 pela editora todavia, que o chamou de “uma epopeia tragicômica sobre a busca pela felicidade”. E é, de fato, muito divertido acompanhar a história de Lucas Pereyra, também argentino e escritor, que se vê passado dos quarenta anos e cheio de conflitos.


A leveza da narração em primeira pessoa passa a sensação de familiaridade – dá para pensar em Lucas como um amigo, daqueles que contam as façanhas na mesa do bar. Sem emprego fixo e aguardando um adiantamento pelos livros que deveria estar escrevendo, ele se vê em uma crise de identidade, num espiral de descontentamento com seu papel em sua própria casa e atraído por uma garota uruguaia que conheceu meses antes.


Além do casamento capengando, Lucas se sente esmagado pela rotina com o filho pequeno, que lhe rouba todo o tempo. Enquanto a esposa banca as despesas da família com um trabalho estável, ele vê uma maneira de fugir. De viver um sonho de liberdade, por mais temporário que seja. E se agarra à oportunidade de preencher aquele vazio e dar um fôlego novo à falta de emoção da vida real.


Mas nem sempre o que foi construído e alimentado por tanto tempo na mente do protagonista corresponde à realidade. O futuro fica ali, entre suas escolhas e as situações que estão fora do seu controle. E Pedro narra como ninguém o dia e os pensamentos agitados que tiveram um impacto tão grande na vida de Lucas.


Montevidéu, cenário da maior parte da história, é também matéria importante. É na descrição de sua chegada ao Uruguai que ocorre a "transição da familiaridade para o estranhamento".


Sua fragilidade não deixa com que o leitor sinta raiva das confissões e reflexões que o acompanham ao longo da viagem para o outro lado da fronteira. Mesmo quando parece cruel, ele se mostra só mais um humano na busca por se descobrir, no processo de entender que, às vezes, é preciso acabar com todas as coisas que "eram, mas não eram", em suas próprias palavras.

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